quinta-feira, 22 de outubro de 2009

POR AI!

No ano de 1974, meus pais tomaram uma decisão que mudaria toda a vida dos meus irmãos, irmãs e naturalmente a minha, saímos de Feira de Santana, cidade onde vivemos durante seis anos, fomos morar na Cidade da Bahia, termo que ouvia muita da minha avo quando se referia a Salvador. Exatamente no dia 17 de janeiro, dentro de uma cabine de caminhão de mudança, cheguei a esta cidade, indo morar a rua Álvaro Adorno, 17, casa hoje onde funciona os Hare Krshna, próximo a ladeira dos Galés. Uma rua pequena e estreita, lá conhecí grandes amigos, como Silvério Fortes Moledo, espanhol de nascimento mas brasileiríssimo de coração, uma pessoa que cativava a quem o conhecia, apelidade de pescocinho devido ao seu tronco curto, além de pés tortos, contavam que ele foi condenado pelos médicos a viver, no máximo, até os 12 anos de idade, com a sua alegria e fé, resistiu ate os 50. Neste mesmo ano, fui matriculado, para cursar a ensino médio, no Colégio Luiz Viana, situado no bairro de Brotas, foram três anos de estudos, brincadeiras, "babas" na quadra e encontro de amigos, com certeza, os melhores anos da minha vida, lá tive o grande prazer de rever Eugênio, grande amigo que conheci em Feira, fumante inveterado e grande apreciador da cerveja, uma pessoa contraditória, superficialmente se mostrava, nas palavras, violento, porém de um grande coração. Neste mesmo período, fiz grandes amizades, Cristina,Heloisa, Cristovão, Bartolomeu, Eziel, Antonio Carlos Sales e meu querido amigo Agnaldo Teixeira, o nosso Guigui, grande companheiro e que sempre admirei, pessoa inteligente, falador de línguas e principalmente de bom gosto musical, através dele conhecí, Ricky Wakemann, Renaissance, Emerson Lake and Palmer e Pink Floyd, além de grandes nomes da MPB. Com esta turma, Eugenio, Sales e Guigui, vivemos grandes aventuras e viagens maravilhosas, principalmente para Sítio Novo, pequena vila, pertencente a cidade de Catu, lá minha família tinha um sítio, onde tivemos momentos de liberdades adolescentes e de convívio de irmãos. Eugenio hoje é um policial, Sales, é funcionário do governo e meu querido Agnaldo, vive distante, no norte do país em Roraima. Todas estas vidas fazem parte das minhas memórias e viverão comigo para sempre, mas mesmo assim sinto falta de tê-los na minha varanda.

domingo, 6 de setembro de 2009

PASSAR A VIDA EM ITAPUÃ


Itapuã na década de 70


Muito mais do que uma tarde, tenho vivido muitos anos aqui em Itapuã, um bairro que mais parece uma daquelas cidades praieiras do interior. Apesar de ter nascido a beira de um rio, o velho Paraguaçu, me acostumei a dormir ouvindo o som do mar quebrando na praia, o vento balançando as palhas dos coquerais e o cheiro perfumado das algas.
A cerca de 20 anos escolhi este local para morar, encontrei amigos e passei a fazer parte da comunidade. Aqui me sinto seguro e na maioria das vezes feliz.
O Princípado, como chamamos nosso bairro, tem características próprias, "tuas casas feias"
mostram uma estética diferente, aqui, separados pelos muros, vidros dos carros e olhares, existem todas as classes sociais e trabalhadores das mais variadas atividades, pescadores, vendedores, empresários e professores.
A violência também faz parte daqui, há assaltos, roubos e as mais variadas formas de agressão, os sons altos, a bebedeira, fruto de uma sociedade sem limites. Mas a solidariedade, as amizades, o companheirismo, a simpatia, os sorrisos são características da grande maioria dos moradores.

Nos últimos anos fomos invadidos, por uma outra forma de violência, a febre imobiliária, principalmente das classes mais abastadas que expulsam, com os seus condomínios, de quase luxo, os antigos moradores da beira da praia, como se o direito, a ela, fosse apenas dos que detém o poder econômico. Outra invasão é dos estrangeiros, que compram grandes casas e montam negócios escusos e voltam para seus países de origem faturando com os altos aluguéis, inflacionando todos os imóveis do bairro.
Fico feliz, quando num domingo, ou feriado, toda a população pobre, desce dos ônibus e vans, invadindo as praias, se distribuindo pelas ruas j, k, l, todo o alfabeto, curtindo cada momento a sua principal diversão, até que no fim da tarde, sentem a preguiça no corpo, se espojam num esteira de palha e desejam um água de coco.
Admiro muito meu bairro, não pelas grandes mansões que são construídas, pelos hotéis e condomínios de luxo que são inaugurados e sim por esta gente simples e trabalhadora que abandonadas pelo poder público fazem daqui um bairro alegre e gostoso de viver. Tem coisa melhor que num fim de tarde comer um acarajé em Cira, beber um refrigerante bem gelado na barraca de Baleia, cortar o cabelo, acompanhado de um bom papo, na barbearia de Salvador, ou sentar, com meu filho, nas areias da Pedra do Sal sentindo a brisa e ouvindo o mar.
As vezes abro uma garrafa de vinho e deitado, na rede da minha varanda, durmo e sonho nos braços da lua. Mas logo é manhã me visto e saio para ir trabalhar em Salvador, porém meu pensamento é a volta para minha casa, meus filhos, minha família e a vida em Itapuã.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

COM A CABEÇA NO TRAVESSEIRO

No fim dos anos setenta, em plena ditadura militar, cursava química industrial na Universidade Federal da Bahia, nesta época conheci grandes amigos, no velho Instituto de Química, a maioria deles atuantes no movimento estudantil, este envolvimento me levou a participar destas lutas também, inicialmente na Associação Atlética dos Cursos de Química ocupando o cargo de presidente e depois no próprio Diretório Acadêmico como um dos secretários, era um período de grandes discussões, de sonhos e reconstruções que complementou-se com a da UNE, materializada no grande congresso acontecido no recém construído Centro de Convenções da Bahia.
Eram tempos difíceis, de muita repressão, cheguei a provar o ardor das bombas de gás duas vezes, numa manifestação diante da reitoria e outra quando da caminhada de Ulisses Guimarães e outros políticos, da Praça da Sé ao Campo Grande, onde os militares e seus cachorros nos deixaram detidos na antiga sede do MDB, eu, minha irmã e alguns nomes que hoje se firmaram na política, ficamos apreensivos até sermos liberados, dois a dois, através de negociações com promessa de não perseguição. Nesta época os nossos desejos por um governo democrático de esquerda era muito grande.
Os novos tempos chegavam, a abertura política acontecia no país, em caravanas íamos ao aeroporto, esperar por exilados que voltavam ao país, lembro-me que numa destas idas, vigiados pela polícia federal, fomos receber Diógenes Alves de Arruda , membro do Partido Comunista do Brasil, era outubro de 1979, no mês seguinte tivemos a triste notícia do seu falecimento.
Deixei a UFBa, sumi do movimento, comecei a trabalhar. Tancredo Neves nos deixava esperançosos por grandes mudanças porém foi o Sarney que assumiu o governo. Tivemos que adiar por mais tempo esta vitória.
Através da primeira candidatura de Lula, voltamos as ruas novamente, fizemos panfletagem, convencemos pessoas, porém fomos surpreendidos com a derrota nas urnas, Collor com seu desempenho na mídia venceu as eleições, mas logo foi retirado do poder pela própria mídia que o elegeu.
No ano de 1994, a esperança voltou, mas ainda assim, fomos derrotados por Fernando Henrique, misto de vendedor e presidente, que ficou no poder durante oito anos, até que em 2002, candidato pela terceira vez, Luís Inácio Lula da Silva, obteve uma grande vitória, o Rio Vermelho ficou pequeno para tanta alegria, lá encontrei os velhos amigos, já um pouco envelhecidos, muitos de cabelos brancos comemorando a realização de um grande sonho, Albertinos, Menandros, Eduardos, Bernadetes e Geovás, todos emocionados e felizes.
Lula assumiu o governo e logo mostrou para o que veio. Entre escândalos e denuncias, percebemos que as coisas não são como havíamos imaginado, a esquerda já não é mais a mesma, nossos ídolos, nunca mais foram os mesmos, os companheiros já não lutam mais pela igualdade e sim pelos cargos e pelos Tucsons, os ideais, estes ficaram nas atas, nas mesas, nos panfletos e nos muros do nosso passado. Os nossos repressores agora fazem acordos e ocupam cargos, que são ofertados pelos governantes como se fosse uma “galinha gorda” enquanto isto somos apelidados de órfãos da esquerda e chamados de românticos, porém na minha luta diária para criar os meus filhos, não tenho mais o mesmo fervor da juventude, mas continuo dormindo tranqüilo e sonhando.